Guia Educativo

Câncer de Mama Hereditário: BRCA e o Teste Genético

Ver casos de câncer se repetirem na família levanta uma pergunta que tira o sono: isso passa de mãe para filha? A maioria dos cânceres de mama não é herdada. Este guia explica o que é a mutação BRCA, quem tem indicação de fazer o teste e o que o resultado muda para você e para os seus.

Resposta direta

A maioria dos cânceres de mama não é hereditária: estima-se que 5% a 10% dos casos venham de mutação herdada, sobretudo nos genes BRCA1 e BRCA2. Ter a mutação significa risco aumentado ao longo da vida para câncer de mama e de ovário, não certeza de adoecer. O teste tem indicação individualizada, com aconselhamento genético antes e depois.

Escrito e revisado por Dra. Maíra Tavares, Oncologia ClínicaCRM-BA 19598 · RQE Nº 11329

Três gerações de mulheres lado a lado em campo sob luz dourada

Primeira Resposta

A Maioria dos Cânceres de Mama Não É Hereditária

Câncer de mama hereditário é aquele causado por uma alteração genética que a pessoa recebeu do pai ou da mãe e carrega em todas as células do corpo desde o nascimento. Ele é a minoria: estima-se que algo em torno de 5% a 10% de todos os casos tenham essa origem. A grande maioria surge a partir de alterações que aparecem ao acaso nas células da mama ao longo da vida, sem que ninguém as tenha transmitido e sem que exista algo a ser passado adiante para os filhos.

Ter história familiar de câncer não é o mesmo que ter uma síndrome hereditária. O câncer de mama é uma doença frequente, e por isso não é raro que duas mulheres da mesma família adoeçam por coincidência, sem nenhuma mutação em comum. A história familiar aumenta a atenção, pode antecipar ou intensificar o rastreamento e é motivo para avaliar a indicação de teste genético, mas sozinha ela não define nada e não é sentença.

Alguns padrões, no entanto, chamam mais atenção: diagnóstico em idade jovem, vários casos na mesma linhagem da família, câncer de ovário, câncer de mama em homem, tumores nas duas mamas. Nenhum desses achados confirma origem hereditária — eles apenas indicam que vale investigar essa possibilidade, com uma conversa técnica antes de qualquer exame.

BRCA1 e BRCA2

O Que a Mutação BRCA Significa — e o Que Ela Não Significa

BRCA1 e BRCA2 são genes que todo mundo tem, homens e mulheres, e a função deles é consertar danos no DNA das células. Quando a pessoa nasce com uma cópia defeituosa de um desses genes, essa capacidade de reparo fica reduzida e o risco de que alguma célula escape do controle ao longo da vida aumenta. A alteração pode vir tanto da mãe quanto do pai, e cada filho ou filha de quem carrega a mutação tem 50% de chance de herdá-la.

Carregar a mutação significa risco aumentado ao longo da vida, e não diagnóstico nem certeza de adoecer. Nas mulheres, o maior impacto recai sobre o risco de câncer de mama e sobre o risco de câncer de ovário e das trompas, ambos consideravelmente mais altos que os da população geral; o tamanho desse aumento varia conforme o gene envolvido, a história da família e outros fatores. Existem mulheres que carregam a alteração a vida inteira e nunca desenvolvem câncer — é por isso que o resultado orienta vigilância e opções, e não um destino.

BRCA1 e BRCA2 são os genes mais conhecidos, mas não são os únicos. O PALB2, por exemplo, também aumenta o risco de câncer de mama, e há outros genes com pesos e implicações diferentes, como TP53, CHEK2 e ATM. Por isso o exame hoje costuma ser feito em painéis que analisam vários genes de uma vez, o que torna a leitura do laudo uma tarefa especializada: cada gene tem uma conduta própria, e nem todo achado muda alguma coisa.

Vale registrar que o assunto não é exclusivamente feminino. Homens que herdam a mutação, sobretudo em BRCA2, têm risco aumentado de câncer de mama masculino, de próstata e de pâncreas, além de poderem transmitir a alteração aos filhos e filhas na mesma proporção que as mulheres.

Indicação do Teste

Quem Tem Indicação de Fazer o Teste Genético

O teste genético não é exame de rotina para toda mulher e não se pede por curiosidade. A indicação é sempre individualizada e nasce de uma avaliação que reúne a sua história pessoal, a história da família nos dois lados — materno e paterno — e, quando já existe um diagnóstico, as características do tumor. O exame que investiga mutação herdada é feito em amostra de sangue ou de saliva, e não se confunde com os testes realizados no próprio tumor, que analisam alterações surgidas dentro do câncer e podem exigir material do bloco de parafina guardado na patologia; lâminas e blocos são emprestados pelo laboratório mediante solicitação e depois devolvidos.

O aconselhamento genético vem antes e depois do exame, e não é formalidade burocrática. Antes, ele esclarece o que o teste pode e o que não pode responder, quais genes serão analisados e o que cada resultado possível mudaria na prática, inclusive para os seus familiares. Depois, traduz o laudo e organiza os próximos passos com calma. Fazer o teste sem essa conversa é a receita para um resultado mal interpretado, em qualquer direção.

Três resultados são possíveis, e vale conhecê-los antes de coletar o exame. Um resultado positivo identifica uma variante patogênica, isto é, uma alteração com efeito conhecido sobre o risco. Um resultado negativo significa que nenhuma alteração desse tipo foi encontrada nos genes analisados — o que não elimina por completo um componente hereditário em famílias com muitos casos, já que nem todos os genes envolvidos são conhecidos hoje. E existe a variante de significado incerto, a chamada VUS, um achado cujo efeito ainda não foi definido e que, sozinho, não deve mudar conduta nem indicar cirurgia.

Os critérios de indicação evoluem com o tempo e vêm sendo ampliados, de modo que quem não se encaixava anos atrás pode se encaixar hoje. De forma geral, e sempre sujeitas à avaliação individual, as situações que mais costumam levar à indicação do teste são estas:

  • Diagnóstico de câncer de mama em idade jovem — as diretrizes atuais já indicam avaliação genética para toda mulher diagnosticada até os 65 anos
  • Câncer de mama triplo-negativo, em qualquer idade ao diagnóstico
  • Vários casos de câncer de mama na família, especialmente na mesma linhagem
  • Câncer de ovário, de trompa ou de peritônio em você ou em uma parente
  • Câncer de mama em um homem da família
  • Tumores nas duas mamas ou mais de um câncer primário na mesma pessoa
  • Casos de câncer de pâncreas ou de próstata avançado entre os parentes próximos
  • Ascendência com maior frequência de mutações fundadoras, como a judaica asquenaze
  • Mutação já identificada em um familiar, situação em que o teste é dirigido

Cada caso é único. Se você está passando por isso, uma consulta dá respostas para a sua situação específica.

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Quem Já Tem Câncer

Mutação em Quem Já Tem o Diagnóstico: o Que Muda no Tratamento

Quando a mutação é identificada em uma paciente que já tem câncer, o resultado pode influenciar três frentes: o tratamento medicamentoso, a decisão cirúrgica e a vigilância dos outros órgãos. Nenhuma dessas mudanças é automática. Cada uma depende do subtipo do tumor, do estágio da doença, do que já foi realizado e das suas prioridades — o resultado genético entra como mais uma peça, e não como um roteiro pronto.

A frente que mais se transformou nos últimos anos é a dos medicamentos. Tumores que surgem em portadoras de mutação em BRCA1 ou BRCA2 carregam uma fragilidade no reparo do DNA, e existe uma classe de comprimidos, os inibidores de PARP, desenvolvida justamente para explorar essa fragilidade. Há cenários bem definidos no câncer de mama em que esses medicamentos são indicados, conforme o subtipo, o estágio e o tratamento já feito; ter a mutação não significa, por si só, que essa será a sua medicação. Em algumas situações, o resultado também influencia a escolha da quimioterapia.

Na cirurgia, saber da mutação antes de operar muda a conversa com o mastologista: quem tem mutação tem risco maior de desenvolver um novo tumor na outra mama ao longo da vida, e a mastectomia bilateral passa a ser uma opção a ser pesada, nunca uma imposição. Por isso, quando o resultado tem potencial de alterar o planejamento cirúrgico, vale solicitar o teste cedo — sem que a espera atrase um tratamento que precisa começar. E, em mulher em idade fértil, a conversa sobre preservação da fertilidade precisa acontecer antes do primeiro ciclo de tratamento sistêmico, com resultado genético ou sem ele.

Quem Não Tem Câncer

Mutação Sem Câncer: Rastreamento Intensificado e Cirurgias Como Opção

Descobrir uma mutação sem ter câncer não é receber um diagnóstico de doença — não há nada a tratar. O que muda é a vigilância. O acompanhamento começa mais cedo do que o indicado para a população geral e costuma incluir a ressonância magnética das mamas, exame capaz de mostrar alterações pequenas em mama densa, usada de forma alternada ou combinada com a mamografia, além do exame clínico periódico com uma equipe que conheça o seu resultado.

As cirurgias redutoras de risco são a segunda ferramenta, e merecem ser tratadas pelo que são: uma opção, não uma imposição nem uma urgência. A mastectomia bilateral redutora de risco diminui de forma expressiva a chance de aparecer um câncer de mama, ainda que não a elimine por completo, e pode ser feita com reconstrução. A retirada das trompas e dos ovários, chamada salpingo-ooforectomia, é a medida mais eficaz contra o câncer de ovário em quem tem mutação BRCA, e costuma ser discutida depois de completada a prole, em faixa etária definida caso a caso conforme o gene envolvido.

Retirar os ovários antes da idade natural provoca menopausa imediata, com sintomas e repercussões ósseas e cardiovasculares que precisam entrar na conta da decisão. Em mulher que nunca teve câncer de mama, o uso de terapia hormonal até a idade habitual da menopausa pode ser discutido caso a caso com a equipe; em quem já teve câncer de mama, a terapia hormonal sistêmica não é indicada, em nenhum subtipo. Nada disso precisa ser decidido na consulta em que o resultado chega: são escolhas que suportam tempo, segunda opinião e conversa com quem convive com você.

Um ponto costuma surpreender quem chega com a mutação recém-descoberta: não existe, até hoje, exame de rastreamento eficaz para o câncer de ovário. O ultrassom transvaginal e a dosagem de CA-125 não se mostraram capazes de reduzir mortes quando usados com essa finalidade, e é justamente por isso que a cirurgia preventiva ocupa lugar central nessa conversa. O acompanhamento de quem tem mutação e nunca teve câncer costuma reunir, com ajustes caso a caso:

  • Exame clínico das mamas em intervalos regulares, com equipe informada do resultado
  • Ressonância magnética das mamas anual, iniciada em idade mais precoce, associada à mamografia conforme a idade
  • Conversa aberta e sem prazo sobre mastectomia redutora de risco e reconstrução
  • Planejamento da retirada das trompas e dos ovários depois de completada a prole
  • Atenção aos riscos que também afetam os homens da família, como próstata e pâncreas
  • Acompanhamento conjunto entre mastologista, ginecologista e oncologista
  • Cuidados gerais de saúde que valem para todos: não fumar, atividade física, controle do peso e moderação com álcool
BRCA também aumenta o risco de câncer de ovário — entenda

Família

O Resultado Não É Só Seu: o Teste em Cascata na Família

Um resultado positivo deixa de ser informação individual no momento em que é entregue. Identificada a mutação, os familiares passam a poder fazer um teste dirigido, que procura exatamente aquela alteração já conhecida — exame mais simples, mais rápido e mais barato que o painel completo. Cada parente de primeiro grau, ou seja, pai, mãe, irmãos e filhos, tem 50% de chance de carregar a mesma alteração, e isso inclui os homens da família.

Quando a mutação da família já é conhecida e o teste de uma parente vem negativo, o resultado ganha um peso particular: é o chamado verdadeiro negativo. Significa que ela não herdou aquela alteração e, portanto, não a transmitirá aos filhos; o rastreamento dela volta a ser orientado pelas recomendações gerais e pelo restante da história familiar. É um dos poucos exames em medicina que devolvem alívio com base sólida, em vez de apenas adiar a dúvida.

A parte difícil raramente é técnica. Contar à família mobiliza culpa, medo e conversas adiadas, e cada pessoa tem o direito de decidir se e quando quer saber — não existe obrigação de testar. Em crianças e adolescentes, o teste para genes que aumentam risco na vida adulta, como BRCA1 e BRCA2, em geral é adiado até a maioridade, quando a própria pessoa pode escolher. Levar à consulta a história dos dois lados da família, com as idades ao diagnóstico, e guardar o laudo do teste são dois gestos simples que ajudam muito quem vier depois.

Perguntas Frequentes

Minha mãe teve câncer de mama aos 58 anos e minha tia aos 62. Tenho 34 anos e vivo com medo — preciso fazer o teste do BRCA?

Dois casos de câncer de mama diagnosticados depois dos 55 anos, sem outros dados, em geral não preenchem sozinhos os critérios de teste genético: o câncer de mama é frequente, e coincidências dentro de uma mesma família acontecem. Ainda assim, a indicação é individualizada e depende da história completa dos dois lados, incluindo casos de ovário, próstata, pâncreas e câncer de mama em homens. Leve essa história por escrito, com as idades ao diagnóstico, a uma consulta: mesmo sem teste, o histórico familiar pode antecipar o início do seu rastreamento.

Descobri um câncer de mama triplo-negativo aos 41 anos e minha oncologista pediu teste genético. Se der mutação, meu tratamento vai mudar?

Pode mudar em mais de uma frente, e é exatamente por isso que o teste costuma ser indicado nesse cenário. Havendo mutação em BRCA1 ou BRCA2, existem situações bem definidas em que os inibidores de PARP, medicamentos em comprimido, entram no plano; o resultado também pode influenciar a escolha da quimioterapia e a conversa sobre o tipo de cirurgia. Nada disso é automático — depende do estágio, do que já foi feito e da avaliação da sua equipe. E, como o tratamento sistêmico costuma começar logo, a conversa sobre preservação da fertilidade precisa acontecer antes do primeiro ciclo.

Fiz o painel genético e o resultado veio como variante de significado incerto. Isso quer dizer que eu tenho a mutação ou que não tenho?

Variante de significado incerto, a VUS, quer dizer que foi encontrada uma diferença na leitura do gene cujo efeito ainda não é conhecido: não é resultado positivo nem resultado negativo. A conduta padrão é não tomar decisões com base nela — cirurgias redutoras de risco e mudanças de rastreamento não devem ser indicadas por uma VUS isolada, e o acompanhamento segue orientado pela sua história pessoal e familiar. Muitas variantes são reclassificadas com o passar dos anos, então guarde o laudo e mantenha contato com o serviço de aconselhamento genético.

Tenho 38 anos, mutação no BRCA1, nunca tive câncer e me falaram em retirar as mamas e os ovários. Sou obrigada a operar?

Não existe obrigação. As cirurgias redutoras de risco são opções a discutir com tempo e sem pressão, e há mulheres com mutação que escolhem manter apenas o acompanhamento intensificado, com ressonância magnética das mamas e exame clínico regular. A retirada das trompas e dos ovários é a medida mais eficaz contra o câncer de ovário, mas provoca menopausa imediata quando feita antes da idade natural, e o momento costuma ser planejado conforme o desejo de ter filhos e o gene envolvido. Peça para discutir cada opção separadamente; buscar uma segunda opinião é legítimo e comum.

Meu irmão teve câncer de mama e descobriram mutação no BRCA2. Devo testar minha filha de 15 anos agora?

O teste dirigido para a mutação já identificada na família é indicado aos parentes adultos, e vale lembrar que homens também herdam e transmitem a alteração. Em crianças e adolescentes, porém, o teste para genes que aumentam risco na vida adulta, como BRCA1 e BRCA2, costuma ser adiado até a maioridade: o resultado não mudaria nenhuma conduta agora e retiraria dela a decisão de saber. O caminho é você e os demais adultos da família passarem por aconselhamento genético; sua filha poderá decidir quando for adulta.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento exigem avaliação individualizada com profissional habilitado. Em caso de sintomas agudos ou situação de urgência, procure imediatamente um pronto-socorro.

Converse com a Dra. Maíra

Atendimento dedicado à mulher, em três unidades Oncologia D'Or em Salvador.

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