Jornada da Paciente

Preservação da Fertilidade: A Conversa Que Não Pode Esperar

Entre o diagnóstico e o início do tratamento existe uma janela curta em que decisões sobre fertilidade ainda são possíveis. Este guia explica por que o momento importa, quais são as opções e o que perguntar à equipe antes do primeiro ciclo.

Resposta direta

As principais formas de preservar a fertilidade — congelamento de óvulos ou de embriões — só podem ser feitas antes do primeiro ciclo de quimioterapia, porque o tratamento pode reduzir a reserva dos ovários. Por isso as diretrizes internacionais recomendam levantar o tema já na primeira consulta, ainda no planejamento, e não depois que o tratamento começou.

Escrito e revisado por Dra. Maíra Tavares, Oncologia ClínicaCRM-BA 19598 · RQE Nº 11329

Mulher jovem sorri junto à janela com luz dourada atravessando a cortina

O Momento Importa

Por Que Essa Conversa Precisa Vir Antes do Primeiro Ciclo

A mulher nasce com um número definido de óvulos, que diminui naturalmente ao longo da vida — é a chamada reserva ovariana. A quimioterapia age sobre células que se multiplicam depressa e, no caminho, pode danificar essa reserva; o risco varia conforme a medicação usada, a dose total e, principalmente, a idade da paciente, sendo maior quanto mais próxima da menopausa. Alguns esquemas afetam pouco, outros afetam bastante, e nem sempre é possível prever o resultado individual antes de começar.

A quimioterapia não é o único tratamento envolvido. A radioterapia sobre a pelve pode atingir os ovários e o útero, cirurgias em tumores ginecológicos podem envolver a retirada de ovários ou do útero, e a hormonioterapia, embora não destrua óvulos, costuma durar anos e não é compatível com gravidez durante o uso — o que adia o projeto de engravidar em uma fase da vida em que a reserva ovariana já está caindo por conta da idade.

Quase todos os temas da jornada oncológica podem ser retomados depois: efeitos colaterais, alimentação, atividade física, apoio psicológico. A preservação da fertilidade é a exceção — as opções mais estabelecidas só existem enquanto o tratamento ainda não começou. Diretrizes internacionais de oncologia, como as da ASCO e da ESMO, recomendam que o assunto seja levantado na primeira oportunidade, com toda paciente em idade fértil. Se ninguém tocou no assunto, você pode e deve trazê-lo.

Opções

Quais São as Formas de Preservar a Fertilidade

Os métodos mais consolidados são o congelamento de óvulos e o congelamento de embriões. Nos dois, a mulher recebe medicações hormonais injetáveis por alguns dias para que vários óvulos amadureçam ao mesmo tempo, e depois eles são retirados em um procedimento rápido, feito por via vaginal com sedação. A diferença está no que se guarda: os óvulos ficam congelados sozinhos, sem exigir parceiro nem decisão sobre uso futuro; os embriões são formados com sêmen do parceiro ou de doador e envolvem acordos que valem a pena discutir com calma antes.

Existem ainda alternativas para situações específicas. O congelamento de tecido ovariano consiste em retirar cirurgicamente um fragmento do ovário para congelar e, no futuro, reimplantar — uma opção considerada quando não há tempo para a estimulação hormonal ou quando ela não é adequada, disponível em poucos centros no Brasil. A supressão dos ovários durante a quimioterapia, feita com injeções mensais de um medicamento análogo do GnRH, pode ajudar a proteger a função ovariana em determinados cenários, mas não é considerada substituta do congelamento por quem deseja garantir a chance de uma gravidez futura.

Nos tumores ginecológicos há caminhos próprios. Antes de radioterapia pélvica, é possível reposicionar cirurgicamente os ovários para fora da área que será irradiada. Em casos iniciais e selecionados de alguns tumores, existem cirurgias que preservam o útero ou parte do tecido ovariano. Nada disso se decide isoladamente: a indicação nasce da conversa entre a oncologista, o cirurgião e um especialista em reprodução humana, considerando o tipo e a extensão do tumor, a urgência do tratamento e o seu desejo. Para aproveitar essa conversa, valem ser levadas por escrito as perguntas a seguir:

  • Meu tratamento tem risco alto, médio ou baixo de afetar os ovários?
  • Dá para esperar o tempo necessário para congelar óvulos sem prejudicar o tratamento?
  • Qual método faz mais sentido no meu caso e por quê?
  • Existe encaminhamento para um serviço de reprodução humana a partir daqui?
  • O que está incluído no custo e por quanto tempo o material fica armazenado?
  • Se a preservação não for possível agora, quais são as alternativas?

Tempo

Quanto Tempo Leva e Se o Tratamento Pode Esperar

O ciclo de estimulação dos ovários leva, em geral, cerca de duas semanas entre a primeira injeção e a coleta dos óvulos. Antigamente era preciso aguardar o início de um novo ciclo menstrual para começar, o que atrasava tudo; hoje existem protocolos que permitem iniciar a estimulação em diferentes momentos do ciclo, encurtando bastante a espera. A coleta é ambulatorial e a maioria das mulheres retoma as atividades em um ou dois dias.

Em boa parte dos casos esse intervalo cabe no planejamento sem prejuízo: há um tempo natural entre a cirurgia e o início da quimioterapia, e também entre o diagnóstico e o começo de um tratamento neoadjuvante, que é aquele feito antes da cirurgia. Em outras situações — doença mais agressiva, sintomas que exigem controle rápido — adiar não é adequado, e aí entram as alternativas que não dependem de estimulação. Quem pesa essa balança é a oncologista junto com a equipe de reprodução, e a resposta é individual.

No câncer de mama, especialmente nos tumores sensíveis a hormônio, os protocolos de estimulação costumam ser adaptados com medicações que reduzem o pico de estrogênio durante o processo. A evidência disponível até hoje é tranquilizadora quanto à segurança dessa abordagem, e ela é usada rotineiramente em centros de oncofertilidade. Ainda assim, a decisão precisa ser tomada caso a caso, com a oncologista ciente de cada etapa — não é um procedimento para conduzir por fora do tratamento.

Cada caso é único. Se você está passando por isso, uma consulta dá respostas para a sua situação específica.

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Tratamento Longo

Hormonioterapia, Gravidez e Contracepção Durante o Tratamento

Nos tumores de mama sensíveis a hormônio, o tratamento com comprimidos diários — a hormonioterapia — dura vários anos, com frequência cinco, às vezes mais. Engravidar durante o uso não é indicado, porque medicações como o tamoxifeno podem causar malformações no bebê, e é preciso manter contracepção eficaz também por um período após a suspensão, definido pela equipe. Para quem planejava ter filhos em breve, o impacto não é apenas biológico: é o calendário da vida que se reorganiza, e vale falar disso abertamente na consulta.

Estudos recentes avaliaram a possibilidade de interromper temporariamente a hormonioterapia, depois de um período mínimo de uso, para tentar engravidar, com retomada do tratamento em seguida. Os resultados de curto prazo foram encorajadores em grupos selecionados de pacientes, mas os dados de longo prazo seguem em acompanhamento e a conduta não serve para todas as situações. É uma decisão para tomar com a oncologista, com seguimento próximo — nunca por conta própria, e nunca interrompendo o comprimido sem avisar.

Contracepção durante o tratamento é assunto sério e frequentemente esquecido. A quimioterapia é tóxica para o embrião, e a ausência de menstruação ou o ciclo irregular durante o tratamento não garantem que não haja ovulação — mulheres engravidam nessa fase. Em tumores hormônio-dependentes, costumam ser preferidos métodos não hormonais, como o DIU de cobre e os métodos de barreira, mas a escolha é individual e deve ser conversada. Diante de atraso menstrual ou qualquer suspeita de gravidez, avise a equipe imediatamente, sem suspender nada sozinha.

Custo e Acesso

Custo e Cobertura: o Que Esperar com Honestidade

Vale dizer com clareza: no Brasil, as técnicas de reprodução assistida costumam ficar fora da cobertura obrigatória dos planos de saúde, e boa parte do processo de preservação da fertilidade acaba sendo custeada de forma particular. A cobertura varia conforme o contrato, e etapas diferentes podem ter tratamento diferente — a consulta com o especialista, as medicações da estimulação, o procedimento de coleta e a taxa de armazenamento do material congelado nem sempre entram no mesmo pacote.

Existem caminhos que ampliam o acesso. Alguns serviços universitários e hospitais públicos mantêm programas de oncofertilidade, e há iniciativas de apoio para pacientes oncológicas que reduzem o custo de medicações ou de armazenamento, com critérios próprios de elegibilidade. Nenhuma dessas portas se abre em vinte e quatro horas, e é justamente por isso que perguntar cedo faz diferença prática: quanto antes a busca começa, mais alternativas ainda estão de pé.

Se, depois de avaliar tudo, o congelamento não for viável — por custo, por tempo ou por características do próprio tumor —, a conversa não terá sido perdida. Saber qual é o risco do seu esquema de tratamento, discutir a supressão ovariana quando ela for indicada e planejar como a fertilidade será reavaliada depois são resultados concretos dessa consulta. Decisão informada, mesmo quando a resposta é não seguir adiante, é diferente de descobrir a opção quando ela já passou.

Para Todas

Se Você Não Deseja Engravidar, a Conversa Ainda Importa

Muitas mulheres encerram rapidamente a conversa sobre fertilidade porque já têm filhos ou não pretendem ter. A questão, no entanto, é mais ampla do que gravidez: o mesmo tratamento que reduz a reserva ovariana pode levar a uma menopausa antecipada, às vezes temporária, às vezes definitiva. Fogachos, alterações do sono e do humor, secura vaginal e dor durante a relação são queixas frequentes nessa transição, e existem condutas para cada uma delas — desde que sejam ditas em voz alta na consulta.

A saúde óssea merece atenção específica. A queda do estrogênio acelera a perda de massa óssea, e mulheres que entram em menopausa precoce por causa do tratamento têm risco maior de osteoporose ao longo dos anos. Avaliação com densitometria óssea, atenção ao cálcio e à vitamina D, exercício com carga e, em algumas situações, medicações que protegem o osso fazem parte do acompanhamento oncológico — não são um extra opcional.

A reposição hormonal sistêmica usada na menopausa comum em geral não é indicada para quem teve câncer de mama, qualquer que seja o subtipo do tumor, e essa decisão nunca é tomada por fora da oncologia. Isso não deixa ninguém sem recurso: há alternativas não hormonais para fogachos, hidratantes e lubrificantes vaginais específicos e apoio especializado em saúde sexual, mas isso não deixa ninguém sem recurso: há alternativas não hormonais para fogachos, hidratantes e lubrificantes vaginais específicos e apoio especializado em saúde sexual. Falar sobre sexualidade e sintomas de menopausa com a equipe não é vaidade nem assunto menor — é parte do cuidado, e a qualidade de vida durante e depois do tratamento depende disso.

Orientações práticas para o dia a dia do tratamento

Perguntas Frequentes

Tenho 32 anos, acabei de receber o diagnóstico de câncer de mama e a quimioterapia está marcada para daqui a duas semanas. Ainda dá tempo de congelar óvulos?

Pode dar, sim — vale perguntar hoje mesmo, sem esperar a próxima consulta. Um ciclo de estimulação leva em média cerca de duas semanas, e os protocolos atuais permitem começar em diferentes momentos do ciclo menstrual, o que reduz a espera. Se o tratamento pode ou não aguardar esse intervalo depende das características do seu tumor, e a decisão é da sua oncologista junto com o especialista em reprodução. Peça o encaminhamento com urgência: depois do primeiro ciclo, essa opção deixa de estar disponível.

Tenho 41 anos, vou fazer quimioterapia e ainda pensava em ter um filho. Nessa idade vale a pena tentar preservar a fertilidade ou já é tarde?

Vale conversar, sim. A reserva ovariana diminui com a idade e a chance de sucesso do congelamento tende a ser menor depois dos 40 do que aos 30 — mas quem define se faz sentido no seu caso é a avaliação individual, com exames que estimam a reserva, e não a idade isolada. Vale saber também que o risco de menopausa definitiva pela quimioterapia é maior quanto mais perto da menopausa natural a mulher está, o que torna a conversa mais urgente, não menos. Números de grupo não preveem o seu resultado.

Minha oncologista disse que vou tomar tamoxifeno por cinco anos. Consigo engravidar depois desse tempo ou preciso desistir da ideia?

Gravidez depois do tratamento é possível para muitas mulheres, e a maternidade após câncer de mama não está proibida — mas o planejamento precisa ser feito com a equipe. Durante o uso do tamoxifeno não se deve engravidar, porque a medicação pode causar malformações, e é preciso aguardar um intervalo após a suspensão, definido pela sua médica. Estudos recentes avaliaram a interrupção temporária do tratamento para tentar engravidar em pacientes selecionadas, com resultados iniciais encorajadores e acompanhamento ainda em curso. Traga o assunto antes de começar, para que o plano considere seu desejo desde o início.

Tenho 36 anos e minha menstruação parou logo no segundo ciclo da quimioterapia. Ainda preciso usar algum método contraceptivo?

Sim, precisa. A parada da menstruação durante a quimioterapia é comum, mas não significa que os ovários deixaram de funcionar de forma definitiva — a ovulação pode ocorrer sem aviso, e gestações acontecem nessa fase. Como a quimioterapia é tóxica para o embrião, a contracepção eficaz deve ser mantida durante todo o tratamento e pelo período que a equipe orientar depois. Em tumores sensíveis a hormônio, costumam ser preferidos métodos não hormonais, como o DIU de cobre ou preservativo. Diante de qualquer atraso ou suspeita de gravidez, avise a equipe imediatamente.

Meu plano de saúde cobre o congelamento de óvulos por causa do câncer? Estou sem condições de pagar tudo do próprio bolso.

Na maior parte das vezes, não: no Brasil as técnicas de reprodução assistida costumam ficar fora da cobertura obrigatória dos planos, e boa parte do processo acaba sendo particular — embora a cobertura varie conforme o contrato e valha a pena consultar a operadora por escrito. Existem programas de oncofertilidade em serviços universitários e iniciativas de apoio que reduzem custos de medicação ou armazenamento, cada uma com critérios próprios. Peça essa informação logo na primeira consulta: a busca leva tempo, e quanto mais cedo ela começa, mais portas ainda estão abertas.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a consulta médica. Diagnóstico e tratamento exigem avaliação individualizada com profissional habilitado. Em caso de sintomas agudos ou situação de urgência, procure imediatamente um pronto-socorro.

Converse com a Dra. Maíra

Atendimento dedicado à mulher, em três unidades Oncologia D'Or em Salvador.

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